
A partilha, Praia de Ingleses, 2009 foto e texto Ida Duclós
Muito antes de o homem branco chegar à Ilha de Santa Catarina, os indígenas já pescavam tainhas em nosso litoral. Em contextos históricos diversos, a tradição pode adquirir outros significados, mas a prática ainda hoje conserva os mesmos princípios básicos: é uma pesca comunitária realizada no inverno, quando os peixes chegam para a desova em nossa costa litorânea. O uso das canoas, o cerco aos cardumes, o costume de bater com pás de madeira para o peixe entrar na rede, tudo isso está nos relatos dos primeiros europeus que estiveram em nossas praias. É um conhecimento ancestral transmitido de geração para geração, mas não pode ser atribuída à tradição açoriana, como o senso comum geralmente o faz.
Os imigrantes que vieram repovoar a Ilha de Santa Catarina – já que os indígenas tinham sido expulsos, exterminados ou escravizados – eram pastores em suas terras de origem. Aprenderam com nossos índios (direta ou indiretamente) as técnicas necessárias à sobrevivência no espaço que passaram a habitar. Abandonaram o cultivo de cereais como o trigo e o centeio a que estavam acostumados nos Açores, para adotar a mandioca, o milho e o peixe na brasa em sua alimentação. O linho continuou sendo usado, mas passaram a tecer com o algodão, a fibra nativa disponível. Assim foi com a horticultura, a cestaria, a olaria:é um conhecimento que vem da cultura indígena erroneamente atribuída aos açorianos. Aqui se transformam em lavradores, artesões e pescadores, adotando a mesma sazonalidade dos antigos habitantes da ilha: os carijós. Alternavam sua vida de trabalho entre a roça e a pesca – do outono ao inverno para a pescaria da tainha e da enchova. Da primavera ao verão, em terra na agricultura de subsistência.
É certo que muito foi modificado, a moagem da mandioca, a introdução dos engenhos. Novas hierarquias sociais se estabeleceram, as terras comunitárias passam a pertencer a quem tinha algum título de nobreza ou de alguma forma conseguiu ser agraciado pelos representantes da Coroa. São esses que se tornam os donos das canoas e das redes nos séculos vindouros.
Através das datações realizadas nos sítios arqueológicos, sabe-se que a ocupação humana na ilha tem aproximadamente cinco mil anos e o grupo predecessor aos carijós foram os construtores dos sambaquis (também pescadores como atestam as pesquisas arqueológicas). Essa população foi desalojada pelos carijós que passaram a ocupar o território a mais ou menos 500 anos antes do Descobrimento do Brasil. Os guaranis (carijós) se estabeleceram na zona costeira – desde da Barra de Cananéia até o Rio Grande do Sul – vindos provavelmente da Amazonia. Foram chamados pelos cronistas de nossa História de carijós (carió, kariyó, chandal, chandis).
Milton Moreira Wherá Mirim – Cacique da aldeia dos índios guarani Mbyá de São Miguel, Biguaçu (SC) - diz que o nome “carijó” foi dado aos guaranis do litoral catarinense pelos bandeirantes, vindos de São Paulo. “Carijó” (cari-ió) deriva de “cari”, que significa “branco”, em alusão à pele mais esbranquiçada dos nativos catarinenses. Os índios chamavam a si mesmos de “avá” ou “abá”, cuja tradução é “gente”. Já os “bandeirantes” eram conhecidos pelos nativos por “tapuya” (bárbaros). Os guarani de Biguaçu contam seus antepassados habitantes da ilha de Santa Catarina pertenciam a dois grupos distintos chamados “Chiripá” (escuros) e “Phaim” (claros). Originários do atual Paraguai, migraram rumo ao litoral catarinense séculos antes da chegada dos europeus. Em função dos casamentos interétnicos entre esses dois grupos – que falavam dialetos guaranis diferentes, mas comprensíveis mutuamente – surgiu o povo indígena nativo da ilha que os colonizadores brancos encontraram nos séculos XVI e XVII.
Contando a História do Guarani Nato da Região da Grande Florianópolis e principalmente da Ilha de Santa Catarina
Por Milton Moreira Wherá Mirim, 15 de fevereiro de 1989.
Cacique da aldeia dos índios guarani Mbyá de São Miguel, Biguaçu, Santa Catarina (Brasil)
Na Ilha de Santa Catarina, tinha uma aldeia que se chamava Tekoa Guassú-Há-Há-Kupé. Essa aldeia era muito respeitada, porque só moravam caciques, curandeiros, conselheiros, líderes de instrumentos musicais, e até os líderes de caçadores. Desta maneira nas outras aldeias tinham somente os segundos líderes.
Tinham as aldeias chamadas de Itakuruii, Pira’júmboaié e Mossamby, que ficava numa ilhazinha onde localizava-se o cemitério dos índios. Esses índios eram das tribos Chiripás e Phaím. Essas duas tribos eram de peles claras, por esse motivo passaram a ser chamadas de Guarani-Karijós pela sociedade branca, porque não sabiam a definição certa.
Mais ou menos por volta de 1.767 índios e 3.600 mulheres e crianças habitavam a Ilha de Santa Catarina. Nesta época ainda não tinham muito contato com homens brancos. Ao passar do tempo a infiltração do homem branco foi tanta que surgiram doenças como tuberculose, bronquite e outras. Essas doenças foram que acabaram com maior parte dos índios Guarani-Karijós.
Os índios que restaram ainda sofreram pela segunda vez com os conquistadores da Ilha de Santa Catarina, que começaram as matanças dos Guarani-Karijós. Desses índios sobraram apenas sete casais, que tiveram que fugir para o sul da ilha. Escolheram a ponta sul da Ilha porque ficava mais próxima do continente. A travessia aconteceu da ponta da Ilha até a praia da Pinheira. Mas esses casais de índios não queriam ficar na beira da praia por motivo de poderem ser massacrados de novo, então tomaram rumo norte até deparar-se com o Morro dos Cavalos. Ficaram ali até surgir a 1ª Guerra Mundial, que foi por volta de 1914. A partir daí tomaram rumo oeste, próximo a Santo Amaro da Imperatriz. Lá acharam um lugar chamado até hoje de Rio do Bugre.
Foi somente a partir de 1942 que os índios foram aparecendo pouco a pouco na região de Palhoça junto com os colonizadores. Desses índios Guarani, que vieram a ser nossos pais, restam só nós atualmente.A partir de 1978 começamos a procurar um lugar para ficar, até que encontramos um lugar aqui no bairro São Miguel, município de Biguaçu. Estamos neste lugar desde 12 de outubro de 1987. Nós somos os últimos dos índios Guarani-Karijós que ainda falamos o nosso idioma nato. Por este motivo, queremos parabenizar o nosso lugar e também a toda a comunidade de São Miguel, Biguaçu e Florianópolis. Pedimos para os nossos governantes que olhem mais para nós, que ajudem mais a minha comunidade em termos de alimentos, para que um dia possamos ajudar o Brasil.
Agradecemos em nome da comunidade indígena pela compreensão e pela honra que nos deu. (transcrição do manuscrito feita por Ozias Deodato Alves Jr)
Os karyós ou guaranis carijós da Ilha de Santa Catarina dominavam diversas técnicas de confeccão, redes, cestos, peças talhadas na madeira, canoas e pirogas, utensílios de cerâmica lisos e decorados. Suas redes redes tinham um tracado variado e muito de seu conhecimento foi repassado para os imigrantes acorianos, como a fabricacao de esteiras e cestos, das panelas de barro às armadilhas de caça, como o mundéu e a arapuca, e de pesca, como o covo e o jiqui. Principalmente sua maior peça artesanal: a canoa escavada em tronco de garapuvu.
No recente movimento de auto afirmação de identidade, o “manezinho” da lha de Santa Catarina reconhece em sua tradição a herança cultural das Ilhas dos Açores. Mas ignora o quanto foi decisivo para seus antepassados imigrantes a apropriação das técnicas indígenas nativas para a sobrevivencia numa terra estranha. Assim é para a fabricação da canoa e da rede e a da prática da pesca da tainha, ainda hoje realizada nos meus moldes artesanais dos indígenas.
O ilhéu catarinense sentiu-se depreciado por seus vizinhos que de forma preconceituosa os chamavam de “manezinhos” (para significar indolência e provincianismo) em contraste com sua própria origem “pura” de imigrantes alemães. (Lacerda, 2003) Na sequência, o modo de vida das comunidades tradicionais é desestruturado com a invasão de hordas de turistas e pela especulação imobiliária, que expulsa os pescadores de suas praias. Ao mesmo tempo, a cidade de Florianópolis sofre com a intensa chegada de novos moradores, que vem em busca da sua propalada “qualidade de vida”.
É atitude habitual dos grupos ameaçados de alguma forma, recriar uma identidade ressaltando os traços comuns de uma origem “mítica”. É uma estratégia simples: o termo “manezinho” passa a ser usado pelos ilhéus com outra conotação: é utilizado para significar “quem é daqui” (motivo de orgulho), ou seja, quem se considera realmente com direito a viver na cidade e não é culpado por trazer os problemas que enfrentam todas as metrópoles brasileiras (trânsito, poluição, violência, destruição da natureza).
Nesse contexto, não é possível se reconhecer na representação dos índios Kariós – pois ela é negativa: um povo vencido e escravizado, a quem como justificativa para sua expulsão foi chamado de “selvagem” e “ignorante”. Os traços culturais que são ressaltados são de sua origem açoriana, européia – considerada pelo imaginário preconceituoso da sociedade quase tão “pura” quanto os imigrantes italianos ou alemães.
Certamente a tradição da Ilha de Santa Catarina deve muito à herança açoriana de seus antepassados. Mas finge não saber o quanto recebeu dos índios Karyós.
Descrições da Pesca da Tainha no século XVII e nos dias de hoje

Em “Tratado Descritivo do Brasil em 1587″, Gabriel Soares de Sousa faz uma das primeiras descrições da Ilha de Santa Catarina e dos índigenas “carijós” – que nessa época ainda eram senhores dessa terra. Em suas palavras, a ilha era chamada de “Xerimerim” pelos índios e a a tainha de “paratis” . A narração da pesca da tainha de Gabriel Soares de Sousa, é bastante semelhante a que faz o alemão Hans Staden – que chegou na baía sul da Ilha de Santa Catarina em 25 de novembro de 1549.
Ambos os europeus descrevem a técnica indígena de fabricação das canoas de um tronco só e falam do cerco à tainha – como é feito até os dias de hoje. Staden dá detalhes de como são tecidas as redes de pesca das folhas do tucum e da repartição dos peixes entre a comunidade.
HANS STADEN em 1549
…Quando assim sucedeu, lhe perguntamos em que região estávamos, e ele disse: “Estais no porto de Jurumirim, como chamam os selvagens, ou, para compreenderdes melhor, no porto de Santa Catarina, como o denominaram os descobridores.”
Neste tempo (agôsto) procuram uma espécie de peixes que emigram do mar para as correntes de água doce, para aí desovar. Estes peixes se chamam em sua língua piratís e em espanhol “lisas” (tainhas). Nessa época empreendem eles em geral uma excursao guereira, a fim de melhor poderem aprovisionar-se de víveres. Pescam grande número de peixes com pequenas redes….Recolhem grande porção de peixes, torram-nos sobre o fogo, esmagam-nos, fazendo deles farinha, a que chamam piracuí, que secam bem afim de que se conserve por muito tempo. Levam-na para casa e comem-na juntamente com a de mandioca.
…Além disso tem pequenas redes. O fio com que as emalham, obtem-no de folhas longas e pontudas, que chamam tucum. Quando querem pescar com estas redes, juntam-se alguns deles e colocam-se em círculo na água rasa, de modo que a cada um cabe um determinado pedaço da rede. Vão então uns poucos no centro da roda e batem na água. Se algum peixe quer fugir para o fundo, fica preso à rede. Aquele que apanha muito peixe reparte com os outros que pescam pouco. Com frequencia vem também gente que mora distante do mar, recolhem grande porcao de peizes, torram sobre o fogo, esmagam-nos, faznedo deles farinha, que secam bem a-fim-de que se conserve por muito tempo. Levam-na para casa e comem-na juntamente com a mandioca. Se levasse assados os peixes para casa, entao nao se conservariam por muito tempo, pois nao o salgam. Também leva uma vasilha mais farinha de peixe do que aí caberiam peixes assados inteiros.“Duas viagens ao Brasil” - HANS STADEN, Editora Itatiaia Sao Paulo, 1974
Gabriel Soares de Sousa em 1587
67.O nome de ilha de Santa Catarina foi dado pelos castelhanos da armada de Gabeto, em 1526. Antes, chamavam-lhe Ilha dos Patos, e já lemos que os indígenas a denominavam Xerimerim
À boca deste rio está situada a ilha de Santa Catarina, que vai fazendo abrigo à terra até junto de Itapucuru, que fica à maneira de enseada. Tem esta ilha de comprido oito léguas, e corre-se norte-sul, a qual da banda do mar nenhum surgidouro tem, salvo um ilhéu, que está na ponta do sul, e outro que tem na ponta do norte; a qual ilha é coberta de grande arvoredo, e tem muitas ribeiras de água dentro e tem grande comodidade para se poder povoar, por ser a terra grossa muito boa e ter grandes portos, em que se podem estar seguras de todo o tempo muitas naus. Mostra esta ilha uma baía grande, que vai por detrás, entre ela e a terra firme, onde há grande surgidouro e abrigada para naus de todo porte; nesta enseada que se faz da ilha para terra firme estão muitas ilhetas; está esta boca e ponta’ da ilha da banda do norte em vinte e oito graus de altura.
Além dos peixes que morrem nas redes, de que fica dito atrás, se toma nelas o que se contém neste capítulo, que não morre à linha. E comecemos logo do principal, que são as tainhas, a que os índios chamam paratis, do que há infinidade delas na baía; com as quais secas se mantêm os engenhos, e a gente dos navios do Reino, de que fazem matalotagem para o mar. Estas tainhas se tomam em redes, porque andam sempre em cardumes; e andam na baía ordinariamente a elas mais de cincoenta redes de pescar; e são estas tainhas, nem mais nem menos como as da Espanha, mas muito mais gostosas e gordas, das quais saem logo, num lanço, três quatro mil tainhas, que também têm boas ovas.
E de noite, com águas vivas, as tomam os índios com umas redinhas de mão, que chamam puçás, que vão atadas numa vara arcada; e ajuntam-se muitos índios, e tapam a boca de um esteiro com varas e ramas, e como a maré está cheia tapam-lhe a porta; e põem-lhe as redinhas ao longo da tapagem, quando a maré vaza, e outros batem no cabo do esteiro, para que se venham todas abaixo a meter nas redes; e desta maneira carregam uma canoa de tainhas, e de outro peixe que entra no esteiro.
Há outro peixe que morre nas redes, a que os índios chamam zabucaí, e os portugueses galo, o qual é alvacento, muito delgado e largo, com uma bôca pequena, e faz na cabeça uma feição como crista, e nada de peralto; este peixe é muito leve e saboroso. Tareira quer dizer “enxada”, que é o nome que tem outro peixe que morre nas redes, que é quase quadrado, muito delgado pela banda da barriga e grosso pelo lombo, o qual também nada de peralto, e é muito saboroso e leve.
Chamam os índios coirimás a outros peixes da feição das tainhas, que morrem nas redes e que têm o mesmo sabor, mas são muito maiores; e quando estão gordos estão cheios de banhas, e são muito gostosos, e têm grandes ovas; os quais morrem nas enseadas.
Arabori é outro peixe de arribação, da feição das savelhas de Lisboa, e assim cheias de espinhas, as quais salpresas arremedam às sardinhas de Portugal no sabor; e tomam-se em redes. Carapebas são uns peixes que morrem nas redes em todo o ano, que são baixos e largos, do tamanho dos sarguetes, em todo o ano são gordos, saborosos e leves.“Tratado Descritivo do Brasil em 1587″, Gabriel Soares de Sousa, Companhia Editora Nacional, Sao Paulo, 1974
Gioconda Mussolini, antropóloga em 1980 -
O espetáculo do cerco da tainha é dos mais impressionantes. Os iniciados na pesca conhecem de longe quando o cardume se aproxima pela opacidade que forma n’água e pelo ligeiro marulhar, que ao leigo escapam. De vez em quando, uma ou outra salta com o dorso prateado reverberando ao sol, pela simples direção do salto, sempre para frente ou para rumos diferentes, sabem se ela está desgarrada ou em manta. Em geral, nas praias em que a tainha é abundante, há o “espia”, velho pescador que conhece muito bem não só os hábitos dos peixes como os “movimentos” do mar em sua praia. Do alto de uma pedra, passa o dia todo, durante a época da tainha, a vigiar o mar. Avistada a manta, toca um búzio: é a “buzina da rede”.
Abandonam todos o que estão fazendo e correm para a praia, atendendo ao chamado. Canoas e redes já estão prontas para serem roladas ao mar. Seguem as canoas que vão fazer o cerco e no seu encalço, as que vão “aparar”. O espia continua na praia controlando os movimentos. Dele partirá a ordem para o lançamento: um simples movimento de braços.O toque do búzio tem que se dar quando o peixe está a uma distância suficiente para que haja tempo para tudo: puxada da canoa para o mar, embarque, emenda das redes. E tudo isso com um mínimo de barulho (nas redes destinadas à tainha, na tralha de chumbo, em lugar de chumbo, usam se saquinhos de lona cheios de areia grossa, para evitar o barulho nos bordos da canoa e não espantar o peixe arisco) e o máximo de rapidez. Está formado o cerco. Arisca como é a tainha tenta saltar para fora do obstáculo, principalmente porque, para excitá-la, se bate com os remos nos bordos da canoa e mesmo dentro d’água. Mas difícil é escapar: Complementando o trabalho das canoas dos tresmalhos, dispõem-se nas proximidades as chamadas canoas de apara, dotadas de uma espécie de entreparo de rede, içado perpendicularmente em um de seus bordos com o auxílio de varas móveis, formando uma parede contra a qual o peixe, no salto, vai bater, caindo dentro do bojo da canoa. Terminado o cerco, desatam-se as redes e cada canoa volta recolhendo a rede e o peixe “emalhado”, e voltam à terra com o respectivo carregamento que vai se amontoar num lugar comum para a partilha. Pelos varais suspensos à frente das casas, por muito tempo se verão expostas ao sol, a secar, as tainas tainhas salgadas que irão constituir a reserva nos momentos de escassez .
“Ensaios de antropologia indígena e caiçara”. Corone, E. (Org.). Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1980
Jair, pescador do Pantano do Sul, em 2003
Os vigias são aqueles que ficam. Os vigias são as pessoas que saem de manhã de casa e vão pegar o seu local de vigia. Pegam seu posto e ficam o dia todo ali, observando o mar e vendo se o cardume vem. Lá na praia, ficam os pescadores, os remeiros, o patrão da canoa que faz o cerco. Tem o chumbereiro, que bota o chumbo na rede, tem o cabo, que segura a ponta da rede. Tudo isso são hierarquias que vai influir depois na repartição do peixe. O dono, na verdade, não apita nada. Nessas horas, quem apita mais é o patrão da canoa. O patrão pode ser o dono ou não. Então os vigias dão o sinal. Conforme o sinal que ele der será a quantidade de peixe que virá. Já se sabe se é pra botar uma canoa ou duas, três ou quatro; depende do sinal. E todo mundo sabe qual é o sinal. Aí o vigia lá dá o sinal, a canoa cerca e todo mundo puxa o peixe pra cima e vamos contar. Conta-se o peixe e vamos dividir.
Ninguém nem chia. É por isso que nós chamamos de tainha da remagem, tainha da vista, tainha do cabo. Todos eles têm direito. Quanto mais matar, mais eles tiram ali.“O Atlântico Açoriano”, Eugenio Pascele Lacerda, tese UFSC 2003.


































