Miradouro de Santa Clara Funchal, 1850 Desenho de Frank Dillon. Litografia de T. Picken
Havia mendigos demais perambulando pelas ruas. No mercado, muito se falava, aos sussurros, de gente morrendo de fome na Ilha. Nas portas da Igreja, um amontoado de pessoas pedindo esmolas, quase impedindo a entrada dos devotos.
Emilia Lucinda viu escassear suas encomendas, as boas senhoras de outrora não lhe pediam mais para costurar as preciosas vestimentas de seus enxovais. Os senhorios da Ilha que haviam construído casas luxuosas na época em que os vinhos valiam muito e viviam da produção dos colonos que cultivavam suas terras, agora vendiam suas propriedades e desapareciam da cidade.
Ela caminhava longas distâncias, oferecendo seus bordados de porta em porta. Sua clientela eram as esquisitas senhoras estrangeiras que chegavam de longe em busca de repouso e do clima ameno da Ilha. Por toda a Europa, se espalhara que em Funchal era possível curar os tísicos e outros males. Aportavam navios carregados de doentes que ficavam alguns meses nas mansões dos antigos proprietários de terras, agora transformadas em hotéis e pousadas.
Muitos dos trabalhos de Emília Lucinda foram assim parar na Inglaterra, Alemanha e até em mesas austríacas. Finos guardanapos ou delicados lencinhos, ricamente bordados. Era coisa pouca, mas o suficiente para garantir o pão da família nos tempos difíceis. A abundância nunca se sentara em sua mesa e Emília Lucinda não almejava mais do que a sobrevivência. Certo, sonhava com um futuro para seus filhos e netos.
Ao seu redor, todos pensam em partir. Não os mendigos que já desistiram de toda a esperança, mas seus vizinhos, amigos, conhecidos. Gente consciente de seu valor, bons operários, artífices de préstimo e até lavradores diligentes que eram mais ou menos bem afazendados. Todos vendem, ou largam por mão quanto aqui possuem, e, com o mais que podem liquidar, vão em demanda de terra que lhes seja menos madrasta.
Foi quando viu seu filho caçula, Fernando Maximiano Veríssimo, partir também. Fernando saiu sem alarde, despedindo-se dela e dos irmãos com um abraço apertado dentro de casa. Manuel de Sousa, natural de Câmara de Lobos, dono de alguns barcos de pesca, levava gente sem passaporte a coberto da noite e em pontos não vigiados para embarcações clandestinas. Fernando Maximiano lhe vendeu o barco do pai, repartiu o dinheiro com os irmãos e acertou sua viagem para o Império do Brasil por 30 mil réis. Guardou o suficiente para comprar uma barca nas novas terras. Marinheiro que era, seu porto de destino era a cidade de Rio Grande, onde pretendia ganhar a vida no transporte marítimo de mercadorias. Quem lhe soprou a idéia, foi um patrício, primo de sua mãe que emigrara há muitos anos.
Para isso, economizou no preço dos documentos necessários para partir legalmente que ascendiam a 4.280 reis. Economizou na caixa de madeira e fechadura, que foi feita pelo irmão marceneiro, João José. Emília Lucinda preparou com cuidado a bagagem de seu filho: dois queijos, sabão, serapilheira para o enxergão, uma manta, três regueifas (pão de trigo), duas macetas de marmelada, meio cento de laranjas, dois frascos de vinho e aguardente. Lembrou da nora que um dia teria e para ela reservou seus melhores bordados.
Depois subiu calada ao Mirante de Santa Clara, esperando ver ao amanhecer o galera* que transportava Fernando Maximiano para terras distantes. Durante muitos anos, foi nesse mirante rezar para Nossa Senhora dos Montes pelo filho que nunca mais viu e pelos netos que não chegou a conhecer.
*Galera: antigo navio comprido, de baixo bordo, a remos ou à vela, com dois ou três mastros; designação comum das embarcações mercantes de três mastros
Fontes documentais:
2.ª Repartição, ofício n.º 2113 de 23/09/1847 do Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, para o Ministério do Reino
Registros paroquiais do Concelho de Funchal
ARM, Câmara de S. Vicente, n.c., f. 55
Bibliografia:
Emigração na Madeira no Século XIX – ? (Lithis) http://www.lithis.net/63
Pitta, C. A. Mourão – DU CLIMAT DE MADÈRE ET DE SON INFLUENCE THERAPEUTIQUE DANS LE TRAITEMENT DES MALADIES CHRONIQUES EN GÉNÉRAL ET EN PARTICULIER DE LA PHTHISIE PULMONAIRE, Montpellier, Typographique de Boehm, 1859.
Vieira, Alberto – História da Cidade do Funchal – A Economia de uma Cidade Portuária. http://www.docstoc.com/docs/document-preview.aspx?doc_id=40054224
“E já navegando com as velas enfunadas ou o motor a trabalhar, os últimos olhares na irremediável despedida vão para o pilar de Banger, erecto e firme logo ali na borda do calhau, e depois, mais lá para o alto, para a igreja de Nossa Senhora do Monte, do namoro, do festejo, da cantoria, da romaria, da devoção em suma.” Mello, L uís de Sousa – Com os olhos postos no Pilar de Banger: Histórias do Porto do Funchal no século XIX
Miradouro de Santa Clara Funchal, 1850 Desenho de Frank Dillon. Litografia de T. Picken


















