A águia submersa

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Seria precipitado atribuir a Casa de Habsburgos – dinastia da Áustria – o símbolo da águia bicéfala, estampado no tinteiro de estanho, que foi encontrado em 2005,  entre os destroços do naufrágio da Praia de Ingleses – Florianópolis/SC. E partir dessa suposição imaginar que a frota espanhola ostentava uma bandeira com esse símbolo nos finais do sec XVII, como fizeram os inúmeras reportagens sobre o assnto. Existe nessa conjetura uma falha do ponto de vista cronológico: desde 1555, a águia bicéfala nao poderia mais estar entre os símbolos da monarquia espanhola, tanto no continente como em seus domínios americanos, o mesmo ocorrendo em relação a Portugal e seus domínios quando da União das Coroas (1580-1640), ou seja, desde quando a monarquia espanhola e o Sacro Império se desvincularam, os Áustrias espanhóis não puderam mais usar a insígnia habsburguiana da águia bicéfala, concernente só ao Império.

Entre os anos de 1660- 1730, a águia bicéfala tornou-se um motivo comum nas artes decorativas e nos objetos artísticos da época, espalhada tanto nos domínios do Vaticano, como na Espanha e em Portugal e seus domínios na América, África e China. Ela aparece sem os elementos heráldicos e insígnias que compõem geralmente as armas dos brasões. É encontrada em frontais de altares, em púlpitos, em retábulos, em oratórios de mesas, em cabeceiras de camas e em vários outros objetos. Germain Bazin em seu livro Architecture Religieuse Baroque au Brèsil, de 1957, faz um levantamento da numerosa ocorrencia desse desse motivo na arte luso-brasileira. Atribuí a causa disso a uma moda da decoração do período barroco.

Maria del Carmen Heredia, Archivo Español de Arte (1996) traz o exemplo de várias lunetas de vidro (fabricadas entre 1670 e 1715), que tem em sua hastil uma águia bicéfala. A autora não consegue explicar o motivo de tal adorno, apesar de fazer uma associação com a reliogisidade dos jesuítas. Essas observações são feitas pelo historiador Jaelson Bitran Trindade em “Vieira, o Império e a Arte: emblemática e ornamentação e ornamentação barroca.

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Na análise feita por Trindade, houve uma reapropriação do simbolismo desse signo pelo catolicismo. O significado do emblema da águia bicéfala - a união entre os poderes espirituais e materiais – é a grande reinvindicação da autoridade da Igreja na segunda metade do século XVII, por se sentir ameaçada num mundo em transformação. Para Trindade, trata-se de impor a soberania da fé católica, que já havia sido contestada no século anterior pela Reforma Protestante. O Vaticano enfrenta as correntes de pensamento religioso do “Molinismo” e os “Bañezianos” seus adversários, o “Jansenismo” e o “Quietismo”, algumas delas condenadas expressamente por Roma. Existe ainda uma crise cultural tentando conciliar o racionalismo tomista com o novo racionalismo iluminista que começava a surgir. É desta época o julgamento de Galileu – cujas teses, só teriam a possibilidade de demonstração física da verdade séculos mais tarde.

Segundo Trindade, o trabalho árduo da Companhia de Jesus pela “ad maiorem Dei gloriam” é para assegurar o poder espiritual e material do Vaticano, nas novas colonias de Portugal e Espanha. Para o historiador, a águia bicéfala passa a representar a “Mãe Santíssima”, a Virgem é o humano tornado divino, tanto quanto deu carne à divindade. Por isso, sua imagem encontra-se espalhada em todos os lugares na China, na África, na América assim como nos países ibéricos. Os prelados e outros dignatários do clero adotam a águia bicéfala em seus pertences, contadores, cofres, tapetes, cabeceiras de leito e etc. Talvez seja aqui, que melhor se encaixe o tinteiro de estanho que os megulhadores da ONG Projeto de Arqueologia Subaquática (PAS) encontraram.

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Se assim for, há a possibilidade que algum dignitário eclesiástico estivesse a bordo da embarcação naufragada na praia de Ingleses e seu porta tinteiro tenha sido encontrado cerca de trezentos anos depois. Essa suposição poderia abrir novas linhas de pesquisa, que ajudassem a desvendar a história escondida embaixo do mar na praia de Ingleses. Seria possível até juntar algumas peças desse quebra cabeças: o lacre de chumbo – também recolhido no naufrágio -com uma espampa igual a insigna papal, poderia mesmo selar alguma correspondência do Vaticano destinada a uma missão mais ao sul do continente. Assim como o sino de bronze – outro objeto resgatado pelos mergulhadores – que deveria ser entregue para alguma instituição da Igreja?

Há ainda mais um motivo para a representaçao da águia bicéfala, impressa no porta tinteiro. A última década do século XVII – época em que teria ocorrido o naufrágio pesquisado – coincide com o rápido reinado do Papa Alexandre VIII (1689 – 1691). Filho de uma aristocrática família de Veneza, Pietro Vito Ottoboni, quando é conclamado Papa – adota o nome de Alexandre VIII e mantém em seu escudo papal o desenho do brasão da família Ottoboni: a águia de duas cabeças.

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Brasão do Papa Alexander VIII, sino do naufrágio e restituição fotogramétrica digital de Priscila von Altrock do porta tinteiro
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