Carte particuliere de l’Isle de Ste. Catherine : située à la Côte du Bresil par 27.d 30 de l’atitude Australe / Frezier, Ingenieur ord. du Roy Mapa de costas e fundos marinhos, 1716 / Santa Catarina, Ilha de (Santa Catarina, Brasil), 1716
Ilha de Santa Catarina …é uma floresta contínua de árvores verdes o ano inteiro, não se encontrando nela outros sítios praticáveis a não ser os desbravados em torno das habitações, isto é, 12 ou 15 sítios dispersos aqui e acolá a beira mar nas pequenas enseadas fronteiras à terra firme; os moradores que os ocupam são portugueses, uma parte de europeus fugitivos e alguns negros; vê-se também índios, alguns servindo voluntariamente os portugueses, outros que são aprisionados em guerra.
Embora não paguem tributo algum ao Rei de Portugal, são seus súditos e obedecem ao Governador ou Capitão que é nomeado para comandá-los em caso de guerra contra os inimigos da Europa e os índios do Brasil, com os quais andam quase sempre em guerra; de sorte que quando penetram na terra firme, que não é menos tomada de florestas que a ilha, não ousam fazê-lo em grupos menores de 30 ou 40 homens juntos e bem armados. Este Capitão, cujo comando não passa ordinariamente de três anos, depende do Governador da Lagoa, pequena vila distante da ilha 12 léguas ao SSO. Em seu distrito havia então 147 brancos, alguns índios e negros libertos, dos quais uma parte acha-se dispersa pela orla da terra firme. Suas armas comuns são os facões de caça, flechas e machados; possuem poucas espingardas e raramente pólvora; estão, no entanto, suficientemente defendidos pelas matas onde uma infinidade de espinheiros de toda a espécie as torna quase que impenetráveis, de sorte que, tendo sempre a retirada segura e pouco equipamento a transportar, vivem tranqüilamente, sem medo de verem suas riquezas arrebatadas.
Na verdade, encontram-se eles em tão grande carência de todas as comodidades da vida que, em troca dos viveres que traziam a nós não aceitavam dinheiro, dando mais importância a um pedaço de pano ou fazenda para se cobrir, protegendo-os das penúrias do tempo; satisfazem-se com o vestuário de uma camisa e um par de calças; os mais distintos usam também paletó de cor e um chapéu: quase ninguém usa meias ou sapatos, sendo obrigados, no entanto, a cobrir as pernas quando entram no mato utilizam-se então, da pele da perna de um tigre como perneira. Não são mais exigentes com a alimentação do que com o vestuário; um pouco de milho, batatas, alguns frutos, peixe e caça, quase sempre macaco, os satisfaz. Esta gente, a primeira vista, parece miserável, mas eles são efetivamente mais felizes que os europeus, ignorando as curiosidades e as comodidades supérfluas que na Europa se adquirem com tanto trabalho; passam eles sem pensar nelas, vivem numa tranqüilidade que os subsídios e a desigualdade de condição não perturbam; a terra lhes fornece os elementos necessários a vida, as madeiras e as ervas, o algodão, peles de animais para se cobrirem e abrigarem; não almejam essa magnificência de habitação mobiliada e bem equipada, que só fazem excitar a ambição e lisonjear durante algum tempo a vaidade, sem tornar o homem mais feliz; o que é ainda mais notável é que eles se apercebem de sua felicidade quando nos vêem ir a cata de dinheiro com tanta fadiga. A única coisa que tem a lamentar é a de viverem na ignorância; são cristãos, é verdade, mas como podem ser instruídos em sua religião não havendo senão um vigário na Lagoa que lhes vem rezar missa somente nas principais festas do ano: pagam, no entanto, o dizimo a Igreja, que é a única coisa que deles exigem.
Possuem também muitos remédios do país para se curarem de outras moléstias que possam aparecer. O sassafrás, esta madeira conhecida pelo seu bom aroma e comum pelas suas virtudes contra os males venéreos, ali é tão comum que nós cortamos para queimar como lenha; o guayaco , empregado também para os mesmos males não é mais raro; encontram-se ali belíssimas capilárias e uma quantidade de plantas aromáticas cuja qualidade e utilidade são conhecidas por seus habitantes para os seus usos. As árvores frutíferas são excelentes em suas espécies, as laranjas são tão boas como as da China, existem muitas limeiras, limoeiros, goiabeiras, palmitos, bananeiras, cana de açúcar, melância, melões, jerimuns e batatas melhores que as de Málaga, tão estimadas.
Foi lá que vi, pela primeira vez, o arbusto que dão o algodão. Encontra-se também nos bosques uma arvore cuja casca é composta de fibras extremamente fortes, que serve para fazer cordas, e que é chamada de “Mahot”. Vimos uma árvore, singular em seu aspecto, que lhe deram o mérito do nome de “Flambeau” ou ” Cirio espinhoso”: efetivamente suas folhas são feitas tal de um archote de quatro velas, isto é, seu plano é uma cruz arredondada em seus ângulos, reproduzem-se como as plantas nopal, umas das outras; adquirem com o tempo uma altura de oito a quinze pés e dão um fruto que se assemelha bastante a um figo ou uma noz verde, que no Peru se apresenta com seis nervuras, conforme nos descreveu em sua Historia das Antilhas o padre Du Tertre. A “Mancanilheira” é um pouco mais rara; esta árvore é uma das mais venenosas que tivemos conhecimento; seu fruto tem o aspecto de uma maçã camoeza, também venenosa; se acontece fazer fogo ou cortar esta madeira e dela respingar o leite no rosto ou nas mãos, a parte tocada incha e uma dor prolonga-se por vários dias: quando os frutos da mancanilheira caem ao mar e acontece algum “lúcio do mar” comer deles, seus dentes ficam amarelecidos e este peixe, torna-se por sua vez, também venenoso.
A pesca é muito abundante nas inúmeras enseadas da Ilha e da terra firme, onde se pode comodamente pescar; apanhamos peixes de quatro a cinco pés de comprimento, muito agradáveis em seu gosto, semelhantes as carpas, cujas escamas eram maiores que um escudo; uns as possuem redondas e se chamam meros; outros as tem quadradas e são chamados pelos portugueses de salamera e de piragüera pelos índios; encontram-se alguns menores com o nome de quiareo, portando um osso na cabeça semelhante a uma grande fava , sem contar uma infinidade de sargos, carapaus, “machorans”, roncadores, peixes-galo, peixes-rei, sardinhas, etc.
Pegamos um dia um espadarte , peixe singular, que traz a cabeça uma espécie de lamina chata guarnecida de duas linhas de pontas cerradas que lhe servem de defesa contra a baleia, como tivemos a oportunidade dever certa vez na costa do Chile; ele tem ainda uma particularidade que é possuir uma boca e uma outra abertura humana.
A caça não é menos abundante que a pesca; mas os bosques são de tão difícil acesso que é quase impossível de perseguir-se nele o animal mesmo encontrá-lo quando abatido; os pássaros mais comuns são os papagaios, muito bons para comer, encontrados sempre juntos aos casais; uma espécie de faisões chamados “giacotins”, mas de um paladar bem menos delicado; os guarás, aves pescadoras, todas de um belo colorido vermelho; outros menores de um matriz das mais vivas cores agradáveis, chamados de “saiquidas”. Existe também um pássaro muito singular, de um bico longo, e mais belo que o casco da tartaruga, de uma plumagem muito linda, que é o tucano, já descrito por Froger e pelo padre Feuillee. A caça ordinária dos habitantes é o macaco, do que comunamente se alimentam: mas a melhor de todas para os navios em estadia é a dos bois, dos quais há uma grande quantidade em terra firme, por perto de Arazatiba como já disse.
Foi lá que vi, pela primeira vez, o arbusto que dá o algodão,e como ansiasse desde muito por conhece-lo, desenhei um ramo para me servir de lembrança.”

(Relation du voyage de la mer du Sud aux cotes du Chily et du Perou. Fait pendante les années 1712,1713,& 1714 / par M. Frezier, Ingenieur Ordinaire du Roy. – A Paris : Chez Jean-Geoffroy Nyon, Etienne Ganeau, Jacque Quillau, 1716.)

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